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28-08-2006

O ÍCONE DO CRISTO PANTOCRATOR

Igreja Matriz da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes


Diocese de São José dos Campos - SP


Breve introdução à iconografia – Comecemos pelo termo ícone. Esta palavra vem do grego, que significa imagem santa. Termo técnico empregado na tradição cristã oriental bizantina (imagens, pintadas geralmente sobre madeira, que apareceu em tempos muito antigos, fixando-se pelos séculos IX-X,  mas a partir de fins do século XIV, adquiriu uma grande importância na escola de Moscovo, graças ao impulso de Teófanes, o grego, e sobretudo de André Rublev) para designar as imagens de Cristo ou de algum dos seus mistérios, da Virgem Maria ou dos santos, tal como se costuma  fazer na tradição do cristianismo oriental. A arte dos ícones está sujeita a regras precisas que obedecem a critérios, mais teológicos que estéticos, de modo que as formas, as proporções, as cores estão penetradas de um simbolismo que aponta para o mistério da fé.
Na tradição oriental, o ícone é um objeto litúrgico, que é venerado e levado processionalmente durante as celebrações, e a teologia ortodoxa da Igreja Oriental contempla-o numa perspectiva sacramental: não só é uma imagem visível de uma realidade sagrada, mas contém sacramentalmente uma presença dessa mesma realidade. O ícone é uma presença do invisível que brota da própria materialidade da imagem. A característica mais notável do ícone, comparado com o retrato ou com o espelho, consiste em que ele é um “olhar”.

1. Pantocrator, do grego, Todo-poderoso, o que pode tudo, Senhor de tudo, Soberano Senhor, (cf. Ap 1,8).  O Cristo pantocrator é representado em sua majestade e com atributos da Soberania.

2. Interpretação teológica do Cristo pantocrator – O Cristo é representado como pantocrator, sentado em atitude de poder/autoridade e abençoando com a mão direita, enquanto mostra com a esquerda um livro aberto ou fechado do Apocalipse (escrito por dentro e por fora e selado com sete selos [cf. Ap 5,1]), o qual só Ele é digno de abrir (alguns interpretam que o livro é o evangelho). Ele abençoa com dois dedos apontados para cima (duas naturezas: humana e divina) e três unidos (lembrando a Santíssima Trindade). Seus traços são bem definidos: o rosto alongado, sobrancelhas arqueadas, olhos grandes e abertos sempre voltados para o espectador, pois não somente nós o contemplamos mas Ele também nos contempla (No ícone está presente o invisível,  Ele “nos olha, transfigurando-nos”), nariz longo e delicado, seu pescoço é forte, simbolizando que Cristo quer soprar seu Espírito, sua cabeleira vasta ou densa representa a sua sabedoria, suas orelhas (pequenas e brilhantes) mostram sua atitude de escuta do Pai, sua boca pequena indica seu silêncio.
Esta explicação iconográfica clássica acima descrita vale também para o Cristo pantocrator da igreja matriz Nossa Senhora de Lourdes, que faremos a seguir com outros detalhes, no próximo item.

3. A pintura iconográfica da Igreja matriz por detalhes – Primeiramente, a pintura do Cristo pantocrator da nossa igreja matriz aparece sob o fundo das cores azul e verde, simbolicamente, significa que Cristo vive a realidade celestial, sobrenatural, divina e eterna. A pintura do Cristo (autoria de Gustavo Montebello) vem encimada por sete estrelas (cf. Ap 1,16.20). A significação desse símbolo está no próprio livro do Apocalipse que diz: “as sete estrelas são os anjos das sete Igrejas, e os sete candelabros, as sete igrejas” (Ap 1,20).
À direita do Cristo pantocrator, temos um Cordeiro de pé (cf. Ap 5,6), como que imolado, que é o próprio Cristo com o lado aberto (cf. Jo 19, 34). A imagem do Cordeiro está pintado sobre o sol, que simboliza também o Cristo: “Sua face era como o sol, quando brilha com todo seu esplendor” (Ap 1,16). O Cordeiro está de pé, porque ele é o vivente e está ressuscitado pelos séculos dos séculos (cf. Ap 1,18; 5,8-9).
À esquerda da pintura e voltado para o Cristo, temos um anjo com turíbulo incensando o Cristo pantocrator, que oferece as orações de todos os santos (cf. Ap 5,8; 8,3-4).
A túnica branca que cobre o Cristo simboliza a divindade, o sacerdócio (cf. Ap 1,13).
A estola dourada em seu ombro representa a sua realeza (outros interpretam a estola dourada como símbolo do seu sacerdócio eterno), as letras iniciais gregas: IC – XC, querem dizer: Jesus Cristo. As letras:A e Ω (Alfa e Ômega): são respectivamente a primeira e a última letra do alfabeto grego. Aplicam-se a Cristo, Princípio e Fim de todas as coisas. Aparecem no círio pascal, nos paramentos litúrgicos, no ambão, no tabernáculo. Encontramos essas letras na Bíblia, com a interpretação: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim” (Ap 21,6; cf. 22,13; 1,8).
O autor que pintou o ícone da nossa igreja matriz mostra o Cristo pantocrator trazendo em sua mão esquerda um livro fechado com a inscrição dessas palavras: EIS QUE VENHO (Hb 10,7), que define a atitude fundamental da vida do Padre Fundador e de sua Congregação (cf. Cst. 58). Segundo o próprio Padre Dehon: “Nestas palavras: EIS QUE VENHO, encontra-se toda a nossa vocação, a nossa finalidade, o nosso dever, as nossas promessas” (Constituições da Congregação 6).
As mãos e os pés do Cristo pantocrator mostram os sinais da perfuração, os sinais de sua crucificação.
Em baixo da imagem do Cristo e dos símbolos, numa faixa temos a representação de uma videira com doze cachos de uvas entremeadas de folhas. A videira simboliza o Cristo e os cachos de uvas representam os doze Apóstolos que devem permanecer em seu amor. “Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele produz muito fruto” (Jo 15,5).

Pe. José Francisco Schmitt, scj,
São José dos Campos, 12 de agosto de 2006.


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