O IDEAL DO AMOR E DA REPARAÇÃO
Por diversos anos, Leão Dehon, peregrino no espirito, esteve em contínua procura. Enquanto estudava em Paris, sonhava com o seminário. Agora, enquanto trabalha na paróquia, cercado de tantos problemas, sonha com o convento; procura a oração, o estudo, o recolhimento. Recordando um encontro com seu bispo, na data de 25 de fevereiro de 1877, escreve: "Tudo me sorria na vida. Contudo não era feliz. Queria a vida religiosa". Esse seu desejo era alimentado também pelo contato com a comunidade das Irmãs Servas do Sagrado Coração, da qual se torna confessor e diretor espiritual. Em seus colóquios com essas religiosas, tão serenas e fervorosas, repetia muitas vezes determinados temas como: o grande amor de Deus por nós; os desejos e anseios do Coração de Jesus, a ingratidão do pecado; a necessidade de sacerdotes santos, totalmente consagrados para responder ao amor de Jesus, a fim de que o mundo creia.
O sacerdote Leão Dehon amadurece assim a convicção de que somente a força do amor é resposta adequada, tanto ao grande amor de Deus por nós, quanto aos males do homem e do mundo. E se decide a começar daí.. - "Queria ser religioso" - escreve em seu Diário. "Sentia forte atração por uma congregação com ideal de amor e reparação ao Coração de Jesus. Não podia abandonar as obras de São Quintino. Por isso, me perguntava se Nosso Senhor não queria que eu mesmo fundasse a Obra do Sagrado Coração em São Quintino".
Nesse clima de intensa vida espiritual e com esses ideais, Pe. Dehon inicia, com a aprovação do bispo, o seu noviciado aos 13 de julho de 1877 e, um ano depois, no dia 28 de junho de 1878, emite os votos religiosos. Nasce assim, à sombra do Colégio S. João, o Instituto dos Oblatos do Coração de Jesus. Um e outro - Colégio e Instituto 'frutos do espírito de fé e do zelo apostólico, sempre tão empreendedor, do Pe. Dehon. O começo foi próspero e cheio de esperanças... Mas um incêndio destrói o Colégio. Ademais, incompreensões e mal-entendidos provocam uma intervenção da Santa Sé, que manda fechar o Instituto recém fundado.
A dura prova encontrou o Fundador humilde e disponível e colocou em plena luz o seu profundo espírito de fé e de abandono aos desígnios da Providência. Também graças a essa atitude, Pe. Dehon receberá autorização para reabrir o Instituto, que assim ressuscita sobre bases mais sólidas e evangélicas. Era como uma primavera depois da prova do "consummatum est"" . Também a denominação do Instito muda. A primeira - "Oblatos do Coração de Jesus" - era muito cara ao Pe. Dehon, porque exprimia perfeitamente sua espiritualidade: "Oblatos"isto é, "dados e consagrados" ao Coração de Jesus. A partir de 1884, o título oficial torna-se "Padre do Sagrado Coração de Jesus"(S.C.J = Sacerdotes Cordis Jesu).
Como todos os Institutos religiosos, também o Instituto do Pe. Dehon fundamenta suas raízes no Evangelho, mas evidenciando um aspecto característico do mistério de Cristo: a sua oblação de amor, até ao dom total de si mesmo ao Pai e para os homens.
Essa espiritualidade oblativa e reparadora, nascida na Idade Média e enriquecida pela experiência mística de Santa Margarida Maria, estava muito difundida no século passado. Pe Dehon, muito sensível ao amor, tinha-a feito sua; por meio dela nutria uma devoção extraordinariamente viva e pessoal ao Coração de Jesus. Toda a sua vida, os seus escritos, as suas obras estão profundamente impregnadas por ela.
"Para mim - escreve no Diário - esse é o único caminho que me permite andar um pouco desembaraçado... É a primeira vida. É a minha vocação". Ao Coração de Jesus dedicou a Congregação por ele fundada. Como religioso, se fazia chamar João do Coração de Jesus. Todos os seus escritos ascéticos estão centrados nesse mistério: "Mês do Sagrado Coração"; "Ano do Sagrado Coração"; "Vida de amor no Sagrado Coração"; etc.
Sensibilíssimo ao amor do Coração de Jesus, Pe. Dehon, por outro lado, era sensível à recusa desse amor, ou seja, ao pecado "que enfraquece a igreja"e traz tantos males à sociedade. Daí brota, segundo ele, a necessidade da reparação. O "não" ao amor repara-se com o "sim"ao amor. A oblação de amor torna-se para ele, a máxima disponibilidade ativa à ação do espírito e generosa doação ao trabalho pelo advento do seu Reino. Um amor oblativo, vivido apostolicamente, para reparar o pecado, para colaborar na reconciliação dos homens entre si e com Deus, para implantar o reino do Coração de Jesus (ou seja, "a civilização do amor") nas almas e na sociedade: esta é a espiritualidade que Pe. Dehon viveu e que ele transmitiu à sua Congregação como "patrimônio" e como "missão".
Diversas são as expressões que usa para exprimi-la de forma sintética: amor e abandono; espírito de amor e de imolação; amor e reparação; amar, reparar e consolar o Coração de Jesus; vida de amor ao Coração de Jesus, em espírito de vitima, etc. Essa linguagem, ao menos em algumas de suas expressões é tipicamente do século passado e ultrapassada para nós. Mas a realidade que ela expressa é sempre atual. Atual é o amor de Deus; atual é a rejeição desse amor pelo pecado; atual é a redenção de Cristo. Nós somos chamados a reviver e fazer nosso, de alguma maneira, os sentimentos interiores e a missão do Redentor: a sua oblação de amor ao Pai e aos irmãos, a sua obra de expiação e de reconciliação, até a doação total de nossa vida, para a glória e a alegria de Deus.
OS PRIMEIROS 'DEHONIANOS' E A DIFUSÃO DO INSTITUTO
O Instituto, fundado pelo Pe. Dehon em 1878, revelou logo grande vitalidade. Em 1888, apenas dez anos depois da fundação, já contava com 50 membros. Cinquenta anos depois, em 1928 eram 993, Atualmente são 2.482 (mais de 100 noviços), presentes e todos os países da Europa Ocidental, na Polônia, nas Américas, na África e na Ásia. Além das missões nos países distantes, os primeiros colaboradores do Pe. Dehon dedicaram-se ao apostolado social junto aos operários. Em 1891, Leão XIII abria decididamente a Igreja para o mundo do trabalho. Pe. Dehon, que desde algum tempo já dedicava seus maiores esforços ao apostolado social, recebeu do próprio Papa o convite para "difundir suas encíclicas". Entre os seus religiosos que acolheram esse convite, destaca-se de modo particular o Pe. Barnabé Charcosset (1848-1912), que foi durante 25 anos capelão nos establecimentos de Leão Harmel, em Val-des-Bois.
Ali, no verão, faziam-se congressos com os seminaristas de toda a França, para iniciá-los na pastoral do mundo do trabalho. Um apostolado caro aos primeiros padres do Instituto foram também as missões populares diocesanas. Nesse apostolado se distingue o Pe. Afonso Rasset (1843-1905), que foi o primeiro sacerdote a unir-se ao Pe. Dehon, em 1878, quando a Congregação acabava de ser fundada. Tornou-se Conselheiro Geral do Instituto. Morreu em Lille em 1905. O próprio Pe Dehon lhe publicou uma biografia, que traz notícias muito interessantes para a história daqueles primeiros anos da Congregação.
Não pode ser esquecido o Pe. André Prévot (1840-1913), a quem Pe. Dehon chamava "o nosso santo mestre de noviços", Formou, por mais de 20 anos, todos os primeiros religiosos da Congregação. Era de uma austeridade proverbial;. Viveu sua oblação de amor dentro de uma espiritualidade marcadamente mariana. Como o Fundador, também ele mostrou um zelo intenso e discreto pelos sacerdotes em crise ou que tivessem abandonado o ministério.
A Congregação dos '' Padres do Sagrado Coração" tornou-se de direito pontifício com o decreto de louvor de 25 de fevereiro de 1888. Recebeu a aprovação definitiva no dia 05 de dezembro de 1906. Quando Pe. Dehon foi agradecer ao papa S. Pio X a aprovação concedida, recorda a audiência com estas palavras: "O Santo Padre era afável e simples. Fez-me sentar perto de si. Esta bondade, tão espontânea é típica de Pio X. No fim da audiência nos disse: Abençôo-vos juntamente com todas as vossas intenções, as vossas obras e as vossas famílias". |